Cozinhar como expressão de afeto

*por Camila Siebert Altavini

“Cozinhar é o mais privado e arriscado ato.

No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. […]

Cozinhar não é serviço…Cozinhar é um modo de amar os outros.”

(Mia Couto – O Fio das Missangas)

Esta frase circula pelas redes sociais e ela descreve bem o nosso tema deste post: o cozinhar como expressão do afeto. Quem gosta de cozinhar (e de comer) sabe o quanto se pode colocar de afeto nas comidas. Como é diferente comer em um self-service, um bandejão, fast-food ou até mesmo um prato-feito de se alimentar de uma comida preparada com amor e carinho pela avó, mãe, pai ou alguém querido. Como é diferente cozinhar com a obrigação de se alimentar ou para celebrar ou aproveitar com alguém. É por isso também que o cozinhar pode ser terapêutico (como falado no post anterior: Cozinhar como terapia).

No dia a dia atribulado e corrido a escolha dos ingredientes muitas vezes é feita pensando-se exclusivamente na praticidade de prepará-lo, no seu preço ou na facilidade de limpar a menor quantidade de louça possível. Muitas vezes pensamos também apenas em valores nutricionais, quantidades de fibras e se será bem digerido. Depois de selecionados segue-se um protocolo muito simples de limpeza, corte e cozimento, pouco elaborado para evitar fadiga e minimizar o tempo de preparo. Uma boa parcela dos restaurantes seguem essa cartilha que envolve também ter um ambiente com mesas, receber o cliente, anotar pedidos, servir bebidas, servir pratos, oferecer alguma sobremesa ou café, limpar a mesa e repetir isso até o fechamento do turno. Entretanto o processo pode tomar outra forma dependendo do momento e intenção da pessoa.

Sabemos que desde o momento de escolher os ingredientes até o momento de servir é possível notar o quanto se coloca de sentimento no preparo do alimento. Um produto pode ser escolhido cuidadosamente, analisado em sua forma, cor, textura e cheiro. Dessa forma busca-se escolher aquele ingrediente que possa transferir para a receita o seu sentimento e a intensidade dele, ou simplesmente não escolhe-lo e ainda assim transferir seus afetos ao prepará-lo. Depois de selecionados, os ingredientes são partidos em porções cuidadosas para que entrem na receita na ordem correta e assim não atrapalhe o resultado final. O aroma que sai da panela, do forno ou dos próprios ingredientes frios toma conta do ambiente e nele já é possível percebê-los expressando as emoções de quem os prepara. Chega então a hora de servir! A comida é cuidadosamente colocada no prato, como se fosse uma obra de arte ou uma joia rara. A bebida é servida de modo a harmonizar com a refeição e, muitas vezes, facilitar a troca de sentimentos com o alimento e complementar a afetividade contida em cada porção servida no prato. É chegado então o momento mais esperado: a imersão de cada um à mesa nos afetos ali colocados em forma de alimento, combinando assim com as emoções próprias de cada um que degusta esta obra-prima. Ao colocar a comida na boca é possível sentir não apenas o gosto do alimento, mas a textura e a temperatura dele, agradável ou não ao paladar.

É nesta mistura de sensações no paladar que se despertam os mais profundos sentimentos e afetos. É onde se percebe a diferença da qual foi descrita acima: entre a comida feita em série, com a única finalidade de alimentar o corpo na correria do dia-a-dia, e a comida preparada com cuidado e atenção, que serve de alimento para o corpo e para a alma. Cozinhar em muitos momentos pode ser um serviço, mas em outros tantos pode ser um ato de amor, e é para estes que chamamos a atenção, para que possam ser vivenciados como merecem, com o respeito que se deve ter com os afetos e sentimentos.

*psicóloga clínica do CAEP

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2 ideias sobre “Cozinhar como expressão de afeto

  1. Beatriz

    Parabéns pelo texto! Afinal precisamos alimentar não só o corpo mas também o espírito, a alma. É preciso aprender a degustar o precioso tempo de convívio quando se prepara e se compartilha uma refeição! Nem só de pão vive o homem!

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  2. Pingback: Para assistir e se inspirar | CAEP – Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos

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